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Como fugir da polarização política sem fugir da política

5 horas ago 1

Talvez uma das coisas mais difíceis de fazer hoje seja dizer: “não sei”.

Não sei o suficiente sobre esse assunto. Não li o projeto. Não conheço todos os números. Preciso pensar. Posso estar errado.

São frases absolutamente normais. Mas experimente usá-las em uma discussão política e haverá uma boa chance de alguém interpretar sua dúvida como fraqueza, omissão ou, pior, evidência de que você pertence ao “outro lado”.

A política foi ficando assim.

Para muita gente, deixou de ser apenas um conjunto de opiniões sobre impostos, segurança, educação, costumes, economia ou o papel do Estado. Tornou-se parte da identidade. E, quando uma opinião passa a dizer quem somos, mudar de ideia custa muito mais caro.

Por isso, talvez a primeira maneira de fugir da polarização política seja entender uma coisa aparentemente contraditória: não é preciso fugir da política.

É possível ter posição. Votar. Criticar um governo. Defender uma proposta. Rejeitar outra. Acompanhar eleições e até discutir política no almoço de domingo.

O problema começa quando precisamos transformar tudo isso em dois times.

Quando foi que todo mundo passou a ter opinião sobre tudo?

Há alguns anos, converse com alguém sobre dez assuntos diferentes e provavelmente ouvirá dez respostas diferentes.

Uma pessoa pode querer impostos menores e defender o SUS. Pode ser conservadora em determinado costume e progressista em outro. Pode gostar de uma medida de um governo que detesta. Pode votar em alguém e, seis meses depois, considerar absurda uma decisão desse mesmo político.

Isso deveria ser banal.

Mas a polarização tem dificuldade com pessoas contraditórias.

Ela prefere pacotes.

Se você pensa A sobre determinado assunto, presume-se que também pense B, C, D e E. Depois vem a pergunta inevitável: “Então você é de direita ou de esquerda?”

Às vezes somos.

Às vezes não.

E mesmo quando somos, continuamos sendo maiores do que uma definição política.

Nenhum eleitor deveria precisar terceirizar todas as suas opiniões para o candidato em quem votou.

Parece óbvio. Na prática, nem sempre é.

O político que você defende não sabe que você existe

Pode soar duro, mas essa constatação é bastante libertadora.

Políticos têm projetos, partidos, alianças, carreiras, interesses, acertos e erros. Você tem família, amigos, colegas de trabalho e vizinhos.

Ainda assim, há pessoas rompendo relações de décadas para defender políticos que provavelmente nunca conhecerão.

Talvez valha fazer uma conta simples antes da próxima briga.

De um lado está aquele amigo que apareceu quando você precisou. O irmão com quem cresceu. A tia que cuidou de você. O colega que trabalha ao seu lado há quinze anos.

Do outro está um candidato.

Não significa tolerar agressões, preconceitos ou qualquer comportamento em nome da harmonia familiar. Há situações em que estabelecer limites é necessário.

Mas existe uma distância enorme entre estabelecer limites e transformar qualquer divergência eleitoral em falha de caráter.

Nem toda pessoa que votou diferente de você é burra.

Nem toda pessoa que mudou de voto é traidora.

Nem toda pessoa que não quer falar sobre política é alienada.

E nem todo mundo precisa escolher um lado para cada assunto que aparece no noticiário.

Desconfie principalmente quando estiver com muita certeza

A polarização oferece uma sensação confortável: a de que nosso grupo enxerga a realidade com clareza enquanto o outro foi enganado.

Nós pesquisamos. Eles recebem fake news.

Nós defendemos princípios. Eles são fanáticos.

Nós ficamos indignados porque temos consciência. Eles ficam indignados porque foram manipulados.

É uma armadilha conveniente porque sempre coloca o erro do lado de fora.

Uma maneira simples de perceber isso é observar como reagimos à mesma notícia dependendo de quem está envolvido.

Quando um político de quem não gostamos comete um erro, queremos responsabilidade.

Quando é alguém do nosso campo, procuramos contexto.

Quando o adversário muda de opinião, chamamos de oportunismo. Quando o nosso muda, pode ser maturidade.

Isso não acontece apenas na política. Faz parte da maneira como seres humanos defendem suas crenças e seus grupos.

Reconhecer isso não nos torna neutros. Torna-nos um pouco mais cuidadosos.

Antes de compartilhar alguma coisa porque confirma exatamente aquilo que você já pensava, talvez seja justamente a hora de conferir duas vezes.

Leia quem discorda de você. Mas leia gente boa.

Existe um conselho comum para escapar das bolhas: acompanhar pessoas do outro campo político.

É um bom começo, mas falta uma parte importante.

Não procure o pior representante do pensamento contrário.

É muito fácil encontrar alguém dizendo uma barbaridade, mostrar aquilo aos amigos e concluir: “Está vendo como eles pensam?”

Procure o melhor argumento.

Leia jornalistas sérios com os quais você costuma discordar. Economistas de escolas diferentes. Historiadores com interpretações conflitantes. Especialistas que conheçam profundamente o assunto em discussão.

Há uma diferença enorme entre tentar entender uma posição e procurar uma caricatura dela para derrotá-la.

E existe outra regra útil: não forme sua opinião apenas pela opinião dos outros.

Se a discussão é sobre uma lei, tente descobrir o que a lei diz. Se alguém cita uma pesquisa, procure a pesquisa. Se aparece um número impressionante em uma imagem compartilhada no WhatsApp, descubra de onde saiu.

Às vezes você continuará pensando exatamente como pensava antes.

Ótimo.

A diferença é que agora saberá um pouco melhor por quê.

Nem toda conversa precisa terminar com um vencedor

Talvez as redes sociais tenham nos acostumado mal.

Uma discussão parece precisar de vencedor, frase de efeito, ironia certeira e algum tipo de humilhação pública do adversário.

Conversas de verdade raramente funcionam dessa maneira.

Imagine duas pessoas discutindo segurança pública. Uma delas pode ter sido assaltada três vezes. A outra pode ter um filho policial. Outra pode ter crescido em uma região marcada pela violência policial.

Elas não chegam à conversa apenas com estatísticas.

Chegam com uma vida inteira.

Isso não significa que experiências pessoais substituam evidências ou que todas as opiniões estejam corretas. Significa apenas que entender de onde vem uma convicção costuma ser mais produtivo do que tentar destruí-la em cinco minutos.

Uma pergunta sincera pode fazer mais por uma conversa do que dez argumentos.

“Por que você pensa assim?”

E depois vem a parte difícil: ouvir a resposta sem passar aqueles dois minutos preparando mentalmente a réplica.

Você pode concordar com alguém de quem não gosta

Essa talvez seja uma das melhores vacinas contra a polarização.

Julgue ideias separadamente.

Um político de quem você gosta pode apresentar uma proposta ruim. Outro que você jamais apoiaria pode acertar em determinado assunto.

Reconhecer isso não muda automaticamente seu voto.

Você não assinou contrato de fidelidade.

Aliás, democracia deveria funcionar justamente dessa maneira: cidadãos fiscalizam representantes, inclusive aqueles em quem votaram.

Quando começamos a inverter essa relação e passamos a defender o político das críticas em vez de cobrar o político que elegemos, alguma coisa saiu do lugar.

O candidato virou torcida.

E eleitor não deveria ser torcedor.

Há também o direito de desligar

Outra coisa estranha aconteceu nos últimos anos: criou-se a impressão de que precisamos acompanhar política o tempo inteiro.

Não precisamos.

Informar-se é importante. Viver permanentemente indignado não é requisito de cidadania.

Você pode fechar o aplicativo.

Pode deixar o celular na mesa.

Pode passar uma noite sem descobrir qual foi a nova declaração absurda do dia.

Pode silenciar aquela pessoa que transforma qualquer notícia, do preço do tomate ao resultado de um jogo de futebol, em discussão partidária.

Os algoritmos descobriram algo que jornais sensacionalistas conhecem há muito tempo: raiva prende atenção.

E atenção vale dinheiro.

Isso ajuda a explicar por que frequentemente encontramos nas redes sociais as versões mais provocativas das discussões. A pessoa ponderada dizendo “esse assunto é complicado” dificilmente produz o mesmo engajamento de alguém anunciando que o país acabou às 14h37 de uma terça-feira.

Não entregar toda a nossa atenção a esse mecanismo também é uma escolha política.

E se o outro lado estiver realmente errado?

Pode estar.

Fugir da polarização não significa acreditar que a verdade está sempre exatamente no meio.

Há fatos verdadeiros e falsos. Há políticas públicas que funcionam melhor que outras. Há corrupção, abuso de poder, incompetência, autoritarismo e mentira. Há momentos em que é necessário dizer claramente que algo está errado.

Moderação não significa indiferença.

O que muda é outra coisa: discordar de uma ideia não exige desumanizar quem acredita nela.

Você pode combater uma proposta sem odiar milhões de pessoas.

Pode denunciar um político sem desprezar todos os seus eleitores.

Pode defender firmemente aquilo em que acredita e ainda admitir que não possui resposta para tudo.

É mais trabalhoso.

A polarização simplifica o mundo. Há os bons e os maus, os esclarecidos e os ignorantes, nós e eles.

A realidade tem o péssimo hábito de ser mais complicada.

Talvez fugir da polarização seja continuar curioso

Não existe técnica capaz de eliminar divergências políticas. Nem deveria existir.

Uma sociedade em que todo mundo concorda sobre tudo não seria particularmente democrática.

A questão é o que fazemos com a discordância.

Podemos usá-la para escolher inimigos ou para fazer perguntas melhores.

Talvez o exercício mais saudável seja preservar um pequeno espaço de dúvida dentro das nossas próprias certezas. Ler alguma coisa que nos incomoda. Admitir um acerto de quem criticamos. Reconhecer um erro de quem apoiamos.

E, de vez em quando, dizer:

“Você pode ter razão nisso.”

Poucas frases parecem tão pequenas.

Hoje, poucas são tão difíceis.

No fim das contas, fugir da polarização política talvez não seja encontrar um lugar confortável exatamente no meio de dois extremos.

É recuperar o direito de pensar assunto por assunto.

Inclusive o direito de mudar de ideia.